quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

Um restaurante de Okonomiyaki de garagem, gerido por uma mulher que trab...

domingo, 9 de agosto de 2009



15 de março
Srtª Felicidade©
“Dai a César o que é de César!” (Jesus)

A Natureza a criou para ser árvore de porte elegante e produzir laranjas deliciosas,
conseqüentemente dar maçãs era improvável.

A tristeza fez-se sua acompanhante por toda a vida.
A vida em sua roda girando e Srtª Felicidade sustada.

Pelas noites dos tempos,
atmosferas negras e desequilíbrios do coração a arrastaram a realidades azedas e a um mundo mental em desalinho.
Durante todo o tempo,
seu olhar transluzia um jeito de gozação e zombaria –
para esconder sua convivência minguada com a ventura.

Falece-lhe o juízo.

Por bênção do tempo,
passou por várias modificações.

Há tempos,
a deselegância e a falta de urbanidade vinham lhe causando asfixia –
da alma.
E a grossura,
descômodo e repulsa.
Frívola e mal-agradecida,
Srtª Felicidade nomeou rumos novos e pôs-se a caminho.

Amoedada,
arquitetou cemitérios para sepultar sentimentos e construiu cercas e cercas para se salvaguardar da chateação e da ruína de criaturas incomodantes.
Eram precisões do espírito.

O coração palpitava,
mas não era necessário desesperar.
Tudo aconteceu tal e qual tinha que ocorrer.
Via a via que percorreu
(uma vida toda de desapontamentos e desilusões)
e o que finalmente lhe restava.

Passaram-se alguns anos,
e ela voltou à cidade de Costa Careyes.
Ali foi sentenciada ao fim.
Decidiu-se,
entre tão numerosas possibilidades -
pela melhor:
ser cozida viva com batatas e posteriormente,
jogada ao mar alto.

Evane Picoli
08-mar-006.
Dia Internacional da Mulher

domingo, 2 de agosto de 2009

Srtª Enilda



21 de outubro

Filha mimosa de Teresa Má,


nasceu em Ancoradouro Sombrio,


virada para a Lua,


e atacada por raiva,


passou a posse definitiva da sua alma...
Aprovada para a Escola Superior de História em Quadrinhos no Riozinho de Lágrimas,
foi forçada a deixar -
em razão de severamente enfermar.
Passaram-se alguns anos,
e ela retornou à cidade -
passando a ter uma vida desregrada e basicamente citadina,
visto que sua cidade se encontrava em ininterrupta urbanização.
Seus costumes eram igualmente urbanos.
A partir de então,
jamais se afastou de sua natalícia terra,
tendo um funcionamento não muito estimado no convício.
[ainda doía tocar nestas rememorações]
Com seu gênio ostentado sempre:
de muitas idéias e opiniões,
dizedora de graças e de desconsoladoras palavras -
frugal,
séria e veraz.
Facilmente irava-se,
contudo floreada pelo espirituoso falar.
Não era boa alma nem era da concórdia.
Não era de nada e também não era de modo nenhum do bem.
Não apresentava floreios ou ornamentos inúteis.
Srta. Enilda era encantada pela natureza.
No fim da historieta era só a sua pobreza e ela.
Assoprava uma aragem doce e um enorme remanso em todas as coisas,
o dia quente entardecia -
quando alumbrada arquitetou a vida cheia de luzerna,
do mesmo jeito que num adeus desalumiado.
Estava bem e vagamente feliz.
Mandava em casa,
embora e no que era seu...
No umbral do gabinete envidraçado,
arlequinadas,
embustes e patranhas desparramados.

Evane Picoli
Out-006

domingo, 26 de outubro de 2008

Srtª Janet

http://www.harlick.com/
“A verdade nunca é aterrorizante, aterrorizantes somos nós.
As coisas não devem ser vistas de frente, ninguém é tão forte assim, só os que se danam têm força. Do lugar onde se pusera de pé, a vida era muito bonita.
E a dor é que não estamos à altura de nossa perfeição;
E então Ele lhes dá uma superfície de que viver, e lhes dá uma tristeza, Ele sabe que há pessoas que não podem viver com a felicidade que há dentro delas.
É pecado não ter esperança.
Mas que se sabe do que se passa numa pessoa?
Muitas vezes a bondade muito intensa se transborda em maldade.
Não ter esperança é um luxo.
Nós somos as nossas testemunhas.
O dia estava tão bonito que aumentou a sua desgraça.
Por que tentamos ouvir com os ouvidos o que não é som?
Porque as coisas também não são assim tão perigosas e o mundo não acaba amanhã.
Ter esperança é ilógico, pensou animadíssimo, pagando a bebida de todos.
Tinha esquecido completamente de como, de modo geral, as pessoas são estúpidas.
Toda história de uma pessoa é a história de seu fracasso.
Um homem tem por nascença o direito de dormir tranqüilo”. A maçã no escuro, Clarice Lispector

A sua vida toda tivera medo de alma do outro mundo e de um dia cair de podre e de perder o controle sobre si. Caiu e perdeu.
Era mais tola que culpada.
Possuía habilitações, fazia coisa nenhuma.
Tinha o vício do egoísmo em alto grau e um caminho oco.

A vilania macia prevalecia.
Arrodeava à volta de si própria, em uma tontura não de todo desagradável - bambava ao vento.
Embriagada com um ar de contente, mil pensamentos a levavam e perturbavam os seus nervos.
Entrou bem no mais podre da noite. Era a última em sair.
Era feita a sua vontade, mesmo que para seu mal.
Evocava desgraças de toda sorte e se orientava pelo perfume dos incivis.
Pressentia o cheiro malévolo.
Tombou num cremoso silêncio.
A claridade a desnorteava.
Em seguida começou a rolar na vasteza e anos largos de abatimento atroz vieram.

A lua muito alta atravessou a morada das almas dos justos e dos bem-aventurados.
Deixou para abrir a garrafa de vinho numa ocasião posterior e destruiu seu antigo feitio.
Com o passar dos dias as idéias ficaram para trás como fosse abandonando o que provocava mal-estar, o que sobrecarregava o espírito.
Esperançosa, insistia com serenidade.
Fez o que era essencial, fez por onde.
Levaria tempo para assentar-se em uma rotina de vida.
Não estava mais se jogando nas noites, nas ruas... O mais difícil estádio pusera fim.
Reconheceu a estúpida liberdade em que se encontrava e tomou providências.
Uma única atitude e estava salva....

Foi firme, havia que aceitar e crer...
No fundo precisava de si mesma.

Contudo a cabeça voltou a bolhar de tristeza. A desinfelicidade à volta era sem fim nem princípio e a sua falta de alegria se derramava. Mais uma vez sua mente feita em pedaços. Sua depressão à vontade e sua tristeza lançando cintilações trêmulas.
Com mil demônios! Tinha que haver algum Deus para ela.
De novo prisioneira do mundo pregresso.

A mesma lamentação interminável, invariavelmente o mesmo entrecho - que importunava e que a nada levava.
Convinha ter calma para esperar o que tardava. Desejava se ver atendida naquilo que pedia.
Foi atrás de alguma coisa, de qualquer coisa.
Havia algumas jóias no cofre e culpas.
Julgava crudelíssimo o santo todo-poderoso.
Não lhe passava ser entendida. Nem se sagrava em sua dor. Também não tinha dó de si mesma. Tampouco tinha a certeza que caminho significaria caminho de cabras ou caminho de São Tiago. E muito menos tinha assunto.
Novamente o acúmulo de tristezas tirava-lhe a luz.
O caso teria solução, entretanto era preciso dar tempo ao tempo.
Pensava que estava deixando o tempo escapar e o tempo morreu.
Recolheu-se à sua casa incendida para se resguardar da chuva e do medo...
Tendo dentro de si um grande nojo e vão, ela avançava...
Valia-se da escureza para viver.

Ainda mostrava sobriedade diante de tantos obstáculos.
Desenganou-se.
Em estado deprimido da alma, olhava à volta e suspirava.
Neste momento desconfortada desesperava.
O que mais daria força seria a fé... que não tinha. Só tinha de seu a noite e o dia.

Amealhava o que podia, mas carecia de outro agouro e paz.
Determinava o tempo e se esforçava para encontrar uma saída desta situação.
Era uma vida que não a fazia alegre nem bendita e tampouco brilhante.
No sonho, voavam sozinhos, sua gata querida – ela e Deus.
Tinha muita dor e tudo a desgostava.

Apesar de tudo, era bem. Esperaria por milagres.

Arrodeada de vento, ficou sozinha para pensar.
Estava livre do importuno de precisar de ser compreendida.
Houve esperança em que a sorte mudasse... O jogo não virou. E isto era tudo.

Deus queira que recobre a saúde, que transfaça a dor e que voltem atrás para reparar...

Que a vida lhe dê o que ela queira. Alma nova, nova vida – novo alento.
Que arrume a casa, que busque se ajeitar e que chegue a tempo. E que quando menos se espere o melhor venha.
A noite seria de uma grandíssima doçura, a sua paz – total e o tempo acinzentado e chuvoso resolver-se-ia...

Só que o mundo dentro dela não foi restabelecido. Nem a chuva parou. E também não recuperou as forças.

Era docemente tarde, fechou o portão de casa e saiu.
Oh, como tudo era chato.
Que é a vida sem amor?

Maio-Out-008

domingo, 4 de maio de 2008

Srtª Marlom

Foto: Ale Morales
‘Baudelaire dizia que se devia incluir, na Declaração dos Direitos do Homem,
o direito de ir embora e o direito de se contradizer'.
'Historicismo, sociologia, psicanálise? Todos (discursos) emburguesados.'
'Mas eu sou muito fiel às minhas obsessões’! Depois retificou:
‘Digamos que minhas obsessões me são extremamente fiéis’.
Roland Barthes

Seguiu-se uma infância serena e os bosques da Tristeza foram guardados nela.

Srta. Marlom passou sua vida em constantes crises de tristura.
encontrava-se na amarescente gaiola do amor.
tudo Começou com uma indignação, que logo se transformou em irritação e explodiu em ofensas – num crescendo que durou meses.
Srta. Marlom Falava de sua maneira de mal-estar na vida, perpetuamente suspensa entre a fatal e negra solidão e o nojo.
Seu estado espiritual e seu desamparo irremissível a tolhiam de viver em unidade.
Seu capital de saber, dilapidado - Passou vários períodos esquadrinhando os conflitos de sua própria alma.

Logo atrás do revés: os encontros e os livros novos.
Portava flores e insuspeitas cargas invisíveis.
Sem delongas, Srta. Marlom luziluziu como os luze-luzes.
Sempre à borda do aborrecimento e suficientemente irônica para descentrar e sorrir.
Havia passado uma temporada na China, achou sem graça.
Viajou muitas vezes, mas variou pouco o percurso.

As perdições trouxeram-lhe conseqüências ótimas.
Carregava uma certa loucura que era uma forma de lutar.
Com pacatos conhecimentos de Psicologia Anormal, desaferrolhou um recinto escuro nos subterrâneos de um local úmido e criou um infantário.
Presenteava às crianças blocozinhos de açúcar fino revolvido com outras substâncias.
Suas especialidades transformadas em espécies quaisquer.
Era bem desajuizada, infelicíssima e muito sombria, papel inconfortável - mas para ela atrativo, como todo papel.
O trabalho árduo do pensamento e certos espetáculos inocentes e menores da vida quotidiana, atraíam a sua atenção.
Srta. Marlom era, além disso - vista como uma ocupada de coisa alguma.

Diletante, deu seguimento ao que escrevia por total prazer pessoal.
Impura, sua linguagem servia como sua única arma.
A pavonada dos que defendem certezas, que sempre enunciam o poder que oprime –
a Molestava.
Muitas vezes dava aos seus trechos autonarrativos uma cortina ligeira de farsa.
Srta. Marlom não tinha importância por beleza, tinha por alguma riqueza especial.
Tomava o infinito cuidado de não impor seu próprio discurso subjetivo como fala da verdade.

Abalançava a vida em fastientas manobras mágicas.
Seu colar adiamantado, empenhorou.

Podia jurar que os fatos perdoariam seus atos...
Em meio aos ataques aéreos que se repetiam sem intermitência, Teve pensamentos autocidas;
junto o desejo de abrandá-los.
Srta. Marlom quiS ser compreendida e se feriu gravemente.
Sua vida dentre parênteses e um amor Irrevogável, suprimido.
O desalento deste dia, quando experimentou um sofrimento insuportável - ficou marcado em sua alma e como ela mesma, tudo estava abandonado ao próprio destino. Felizmente!

Fim.

Evane Picoli
29-abr-008

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Srtª Maria do Céu


Rainha Victoria 1887

“(...) A morte virá e a ela deverás te entregar, querendo ou não.
 Aquele que organiza todos os dias como se fosse o último, não deseja – nem teme o amanhã.
Deve-se aprender a viver por toda a vida e durante toda a vida se deve aprender a morrer.
Faz a conta dos dias de tua vida, perceberás que poucos restaram para ti mesmo.
Nada está mais longe do homem ocupado do que viver.
Ninguém cuida de si mesmo.
Ninguém te devolverá aquele tempo, ninguém te fará voltar a ti próprio.
Quantas trevas uma grande felicidade causa às nossas mentes!
Todas as coisas que virão jazem na incerteza: vive daqui para diante.
Um homem ocupado não pode fazer nada bem (...)“
Lúcio Sêneca (4 a.C. – 65 d.C.)

A vida lhe foi dada com pouca generosidade e para que realizasse tarefas desimportantes.
Quando Maria do Céu nasceu com os olhos gateados - e irritada com o mundo, roncavam trovoadas e gatos.

Em pleno brilho da vida, abandonou-se à tristeza.
As coisas jamais correram bem e Maria do Céu descobria tão-só afligimento e tribulação.
Desesperava-se com o presente, lastimava o futuro e se queixava do passado.
E dominada por cólera e entregue a ódios, sentia o escoamento da vida.

Maria do Céu dedicou-se aos imprestáveis.
Nunca estava livre para nada, salvo para o vinho que subia à cabeça e para sentimentos desinteressados contrapostos à dor.
Tomava-se de vinho alcoólico para emortecer a dor existencial que em tanto abalava seus sonhos, e assim deixar a crise de nervos para outro momento.
Teve a morte adiante dos olhos.
A bem dizer, os anos corriam rápidos - mas seus dias não eram longos... eram só muito difíceis de suportar.

A felicidade que não lhe pertencia, incomodava.
Em seus olhos a luz da cobiça.
Ocupava-se invejando destinos.

Viu a sorte beijar as suas mãos... Rapidamente.

Mesmo muito sofrida ainda foi atrás de guarida onde pudesse ancorar e sentir acolhimento.
E foi puxada do inferno para a luz mais bela.
Maria do Céu evitava sair à noite.
Os vícios caminhavam sempre a sua volta e ela fugia por portas invisíveis.

Macia, a brisa solar a duras penas embalava a copagem das árvores.
A gataria e Maria do Céu passavam o dia todo à toa.
De dia esperava a noite, cansava-se fazendo coisa alguma.
Era fotografada pelo destino inteiramente assonorentada e esvaziada.
Ficava embriagada pela negligência e gastava seu tempo em nada.
Não dava avance a sua vida e sem nenhum objetivo, lançava-se a novos intentos com vontade inútil.
Tão pouco sabia dirigir seus atos.

Ela devia até ao açougueiro.
Diante da grande penúria e da vida miserável, nenhuma ação.
Maria do Céu não descobria nenhum trabalho que trouxesse ganho financial e pudesse realizar com alguma devotação.
Sua reserva de ouro e a prata esgotada, fez voto de pobreza.

Moviam-se os dias, a gatinha ensonada, se enrolava no sofá e Maria do Céu desbaratava-se em lavores literários e no indiferentismo.
Ela deslindava a liberdade da criação e a unicidade de pensamento, escrevendo acerca de seus despropósitos de maior importância.
Fazia-se acompanhar das letras na esperança de trazer para si algum ganhamento.
Fez seus estudos em Coimbra, onde foi reprovada por não apresentar a sua tese em tempo hábil.
Seus pensamentos excelsos, seus tesouros.

Embora experimentando um certo sossego – Maria do Céu seguia não achando tranqüilidade, tal como o fundo do mar que - depois da tormenta, contudo mantém-se desordenado.
Faziam-lhe medo as almas do purgatório que em contrição e perdidas borboleteavam pela terra.
Livrava-se de estranhos e de intrometimentos.
Ela morava em um porto e não tinha qualquer apego às conveniências.
Não estava nem aí.
E nem mais confidências havia.

No pátio, a gata gritava contra todos e tudo - e Maria do Céu em tom alegre, não íntimo – dava recomendações para qualquer um.
Apesar da pinta insolente e de não ter deferência por nenhum assunto alheio, ela olhava e emprestava atenção às palavras dos outros.
Falsa, mas doce.
Dizia-se acima de qualquer um, dona de si e do seu tempo – e nascida sobre outros céus.
Muito falaram mal por sua posição frente ao poder que o capital exercia sobre o homem.
Tinha inimigos exageradamente falsos, que constrangiam e a queriam como parte de seus cortejos – a fim de lhes prestar homenagem.
Sem dissimular, falava desimpedida.
Sua vida não se perdia pelos padecimentos sem necessidade, caía em erro por conversas esperdiçadas.

Bons ventos levaram seus amigos.
Eles desafastaram-se e se fecharam em copas, pegando para si suas horas.
Tomaram um avião e uma andorinha e seguiram para fazer o verão.
Nunca mais estiveram juntos.

As flores do vaso já desviviam – Maria do Céu cansada de sepultar herdeiros, deixou-se ficar em quieta contemplação do passado e entregou a alma ao Diabo.
Antes de ser mais infeliz, estuporou-se de hemorragia mental.
Em seu último dia passado, tinha elefantes em seu cortejo e um gato-pingado foi pago para seguir o enterro a pé, empunhando uma tocha e uma vela.
O cemitério beijava o mar e como presente de morte ganhou o absolvimento universal.
Um céu de rosas e uma luz negra iluminavam a cena.
Um espetáculo.
Não disse ao que veio e em vinte dias, sua lembrança já era perdida...

Apenas incomum mortal, um jeito de vida invulgar em um rearranjo sem fim.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Srtª Ânjela

A mofina antecâmara estava em meia-luz e da janela se via a catacumba festiva na qual Srtª Ânjela se conservava.

A sentinela abaixada, guardava-se à margem.
Durante anos sumiu num enredo de incertezas.
Em seus andamentos na noite, era vista atrás dos féretros sem cruzes e - malvista em companhias de perdição e vendas de bêbedos quaisquer.
Não tinha alcoômetro que avaliasse o teor do rum de cana doce, com gosto de madeira - que bebia gole a gole com canudinho de papel.
Nas noites de domingo, quando emendava com o desjejum da segunda - trucidava-se.
Os contrabandistas vendendo elixir de cianureto de ouro, em estojos – para a realidade virar engraçada e simples;
e a Srtª Ânjela vendendo a alma mesmo.
Nos bairros altos, por leviandade e por pecado ordinário – surripiando residências.
O pouco de dignidade que lhe sobrou para viver, ficou sem também.
Sua história não tinha graça.
Sua vida esteve sempre revolta por um emaranhado de urupucas.

Amanhecida, avinhada e carunchenta – desmoronava no saimento do Café Santíssimo Virgem que nem uma entidade de outra vida (numa indiscrição de mármore).
Dava para ouvir os aplausos dos mortos.
Cruzes!

Bogotana pura, falava seu pensamento na cara - não disfarçava defronte de nenhuma pessoa nem em influência alguma (também não falava muito a ninguém).
Sempre se afigurou insultuosa.
Supunha que devia a essência de seu feitio de pensar e de ser às bordadeiras e às ilusões imortais.
Tinha renome pela sua desmedida sinceridade.

Modificava consoante seus estados de graça.
Não existia a mínima probabilidade de ser verdadeira.
Nem sequer se congraçava com a vida.

Nos primeiros brilhos daquele junho anterior, acendeu fogueiras no quintal dos fundos -
rogando a Santo Antônio de Pádua que os caminhos abrissem (nem que fossem a cotovelada).
Pensou três vezes: ainda que sem posses visíveis, e ganhando aproximadamente nada - alterou seu fado (resolvendo mudar de vida).
Fez a tempo de plantar.
Em conversações em grupo, no qual cada um depunha suas ausências - suas dádivas (suas graciosidades e suas lindezas) que se baralhavam com as precisões, os espíritos - os humores e os milagres de todos, que iam embebendo gota a gota a sua adoentada mente.
Demandou de algumas semanas para costumar a original e singular marcha.
Ela jamais tinha estado num lugar tão pacato.
Graças ao torvelinho de contentamento que traziam com eles, pela graça de seus formosos caprichos e por ação dessas boas forças - Srtª Ânjela restabeleceu-se de seus achaques.

A desgraça já era passada e apenas estava revocando o evento, e assim lidava com tempos bons e maus.
A vida real terminou dando o que por direito lhe pertencia.
As lembranças eram acidentais e breves, e os rastros desvanecidos.
Com grande alegria, com sorte – com um mundo interno insociável e com uma boa folha corrida de vida tombou do firmamento.
Estava bem e com a sagacidade intata para fazer suas diligências particulares.
Noticiaram-lhe que tinha passagem branca, tudo pronto para descolar.
Essa era sua vida.
Envolvida num trapo de linho negro - na missa de domingo ou no concílio de sexta, esposaria-se de um senhorito com vestes primorosas (com um chapéu-de-sol e com o olho de um verde temerário) entrincheirado em seus gostos, seus preconceitos e suas crendices.
A única paixão dele sabida era a cinematografia.

Os meios não faltaram, uma vez que constantemente foram faltosos.
Srtª Ânjela nasceu sem nenhum talento ingênito, na colorida doçaria da distinta vovó que a começar do amanhecer vivia de vender bolos e refrescos - e que pastoreou a sua puerícia.
No retiro de uma casa, um reino de mulher.
Dependente total da felicidade que nunca teve, em sofrimento – insegura e sem fé de morte natural morreu e foi para o inferno.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Srtª Gong

Que bom ficar assim, horas inteiras, fumando... e olhando as lentas espirais...’ -Mário Quintana-
De uma hora para a outra.
A desgraçada apagou a luz de todo...
A nem uma hora, um sono puro e quieto.
Aquela mesma alminha pertinaz, mesma menina miserável de sempre - sofria.

Não mais sabia de coisa alguma, nem o que procurava.
... nunca soube.
O que tanto buscava não existia.
Que importa!

Bendita no Inferno.
Febricitante, em condenadas vendas (que tanto mal continham) por horas inteiras.
Cada vez mais gravemente débil, era o próprio mal.

A marca de uns sopapos.
Biff! Pow! Sock!
A marca da truculência.
Última vez que lhe mataram.

Absoluto arrependimento infindo.
Oh! as marcas da bebida...
Tsk! tss-tss!

A casa tombou!
Como a vida era difícil.
E que fez?
A deixou no meio.

Lacerada, achou bom ir para um lugar qualquer.
Encheu-se daquela conversação e foi em boa hora... para nem uma parte.
Era a hora decisiva.
Foi tratar da vida.
Pôs tudo em esquecimento.
Ahh! Uf!

De quando em quando, alguns cuidados inúteis -
uma chuva de ouro e uma sombração na vidraça.

O relógio deu meio-dia.
Tick-tock!
Srta. Gong encontrava-se sem forças para declarar o que fez e o que pensava;
Enquanto lhe davam as extrema-unções a fim de perdoados serem seus pecados mortais,
temporais e mesmo veniais – distraída... pensava noutra coisa!
Pensava que tudo se resolveria dentro em pouco tempo.
Não conseguia pensar em mais nada;
Pensou durante uns minutos e divinamente se finou, de pavor.
Ah!
Foi-se aos oitenta anos de idade.
No portão de cemitério, as ratazanas imundas e o corvejamento dos corvos.

Bordados à linha de prata: um pára-sol, um sapato velho e uma fronha.
Um armazém de livros, um balaio - um bule, uma aboboreira -
uma cadeira de balanço e uma Chapelaria.
Seus únicos bens.

Era de mundo nem um, claramente...
Srta. Gong jamais reapareceu.

sábado, 26 de janeiro de 2008

Srtª Mª Flor

“Desde pequeno tive que interromper minha educação para ir à escola”.
Bernard Shaw (1856-1950) escritor irlandês

Srtª Mª Flor nasceu sem adornos, a mãe (que lhe deu chão seguro) em Tapes.
No jardim do casinholo, árvores frutuosas.
No quintal, sua combatente mãe lavava roupas - plantava alface e regava margaridas.
Pelos seus tetos, galinhas negras sem dentes andavam o dia todo.
De noite a mãe guardava uma pistola por baixo do travesseiro para garantir segurança a Florzinha e para protegê-la dos estorvos da vida.
E no portão da rua, a placa: ‘Ave!’
Tempos inclementes.

A vida (de jeito nenhum) não lhes assentava bem.
Andavam pelo esquecimento, olhando as estrelas pela janelinha de uma carruagem de ninguém.
Cercadas de um gelo negro e cobertas de solidão, viviam em pena.
Deram-se muito mal na cidade...
Enfim, o aborrecimento dos fatos derrotou suas ilusões.

Cingidas por uma poeira celeste, enfrentaram (pelo caminho) um tanto de complicações - entretanto chegaram salvas.

Srtª Mª Flor, à margem do tempo e em outro mundo -
ouvia bandas de música de contra-almirantes-do-ar.
A natureza e a qualidade de seus espíritos desagradavam.
Abrigava-se das chuvas tristes com um parasol e dos dias férvidos com um negro paragua.
Acreditava ser malsão viver.
Andava todo o tempo com uma pequena porção de café com gotas de cristal,
porventura intentassem qualquer má ação.
Deglutia lagartos, jacarés nunca.
Ao seu lado, viu algumas pessoas cantarem.
Ela jamais cantava, nunca estava feliz.
As contrariedades e as emboscadas não malbarataram a formidanda fraqueza de sua pessoalidade.
Deu-se aos estudos.
Em cada película vista, invejava todas as vidas e todos os lugares.
Em suas muitas vidas jamais engoliu um golo de álcool nem fumou um uno cigarro.
Não gostava de gulodices.
Estabeleceu uma vida paralela e diversas diagonais.
Vivia na perpendicular.
Era enjoada e nojenta.
Causa: medo de tudo.
Não achava acomodamento dentro do próprio corpo.
Nem conseguia perceber as diferenças entre a beleza, a graça – a vida e o encanto.
O coração não dava mais pulos.
Para recrear a vida, variava seus momentos de ócios -
dentro de um trajo mortuário e em absoluta quietude velava por um pesar carregado e grave.
Sua palidez brilhante, seu aspeto de arquimilionária – seu cabelo metálico com a faca cortado;
seu perfil de corvo e uma mácula na mão esquerda (singulares)
mas não delatavam o que sobrevinha interiormente.

Um fato precioso aconteceu: a sorte lhe sortiu com dúzias de dinheiros.
Comprou uma casinhola tingida de barro branco, de oito câmaras -
um compartimento de despensa e um repartimento de serviço.
Na sala de frente, aos pedaços caindo – cadeiras de ferro e um ventilador elétrico.
Por cima, de uma mesinha cúbica (jamais posta) um bule de estanho - fracamente azulado,
com amapolas e flores de abacate da serra - murchas.
Ali, comeria (em noites agradáveis) seus ovos de mariposa,
seus peixinhos de ouro e seus pudins de desquite.
Era todo seu reinado.

Saía-se bem (porém a moléstia da vida vadia seguiu).

O panorama era complicado.

A fronte mudada e rebentada: estragos dos tempos maus, estrupícios e sinucas da vida -
que esqueceu dando a alma e exorcismando em escritos.
Deus graciosamente mimoseou-lhe com a possibilidade de desculpar a vida.
E graças à sinceridade, a singeleza (a sobriedade) e a todos se pôs a salvo da malvadez.

Assuntos seus (organizados como segredo de Estado)
posteriormente foram dados como notícia em primeira mão...
Que antipatia!

Desempregada pública, graças à desordem social (aos envilecidos e aos maus)
desejava a vida restabelecer.
Seria uma porta para seus abacaxis.
Do que mais precisava?
Para que mais querer da vida?
Não entregava os pontos nem se dava por vencida.
Sem demora estaria na meã madureza.
E a vida seguia rápida.

Por ora aguarda...
Comprou um bom aprovisionamento de cigarros (dos mais baratos e ordinários) e rapé.

Ao menos o pensamento era desacompanhado (leve) e unicamente seu.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Srtª Chika

'No corra, esperamos por ti. Anuncio de la Agencia Funeraria - Colombia'
- Que Deus a tenha em seu Inviolável Reino!
Srta. Chika negou-se a entregar as chaves da necrópole e a morte precisou aguardar sentada duas semanas, ela cerzir sua mortalha - de linho bordado e engolada.
De sapatos argênteos foi sepultada por debaixo de um aguaceiro.
Os enlutados prepararam para seu velatório uma ceia de gala, uma recepção consagradora com bandeiras brancas e quermesse com orquestra.

Srta. Chika adentro portava pedras que não haviam sido abrilhantadas.
As abstenções - as deficiências de gentilezas, as explosões e as volubilidades de humor enfureciam-na sempre.
Neta de uma latifundiária opulenta, nunca compartiu de versões maldizentes e malintencionadas.
Para que a levassem a sério, entretia-se fazendo chalaça até mesmo em ocasiões não propícias.
E sem artifícios, sempre chegava para ir embora.
Tinha conseguido a palma.

Os seguidos governos nada realizaram...
Então, no dia dos defuntos - Srta. Chika embolsou um livro na gabardina, tomou a valise e o ar insensível do anoitecer bateu-lhe por inteiro.
Acumulou parco dinheiro e raras virtudes.
Fez seus fundos à força e resolveu sua vida.

A bonança tinha adentrado sua casa sagrada.
Srta. Chika era de uma sorte cobiçada.
A vila nova, na mais notável cidade - tinha um clima de festejo.
No centro daquele mundo estava a sua casa, reconhecida pela fragrância das flores de mamoeiro e de manjericão em botões.
No quintalzinho que sempre estava em sol, galinhas amarelas e nutridas.
Com a fresca da tarde, depois que dormia a sesta numa cama de lona em um repartimento qualquer - lia até ser distraída pelo som das festividades noturnas.
Enchia de pães açucarados o aborrecimento das horas mortas e o vazio.
Habituou-se aos desconsolos e aos temporais da vida, e os encarava com facilidade.
Com seus contados rendimentos de arquiteta juramentada seguia vivendo em Riachuelo dos Porcos.
O dinheiro da feira dava para só um dia.
O mundo tornava-se curto e descansado.
Comedir a inveja dava-lhe muito trabalho, então não o fazia.
Era conhecida pela sua desonradez e maldade.
Sem medalha de excelência e sem referências, não era dona de nada e por pouco também que não era nada.
Sua dificuldade com a existência era insolúvel e seus textos com juízo pouco, mas a singeleza reinava.

Quando se afligiu pela sua sanidade iluminada pelo diabo, Deus não a chamou.
Então impôs a si própria algumas incumbências:
Não saía de casa sozinha depois das seis da tarde, renunciou de seus dias desprezíveis e inventou uma cirurgia no pensamento.
E permaneceu lúcida até ficar muito velha.

Ardeu em fogo numa inesperada paixão por um aviador alemão e não podia suportar as ânsias desenfreadas de estar com ele a toda hora.
Nem se recordava de ninguém mais adorável.
Mais que o compreensível amor sensual, sentia pelo estrangeiro uma admiração assombrosa pela sua idiossincrasia em frente à contrariedade.
Foi um grande fracasso, uma grandiosa frustração.
Quando sofreu uma pane na cabeça e ficou louca de pedra e sem alma.
Andava com as lágrimas entaladas na garganta e o espírito à deriva, em noites de espantosas tempestades - largada, nas vias mortas - e sem escudo.
Bancava a tonta e burlava ilusões.
Com os olhos ásperos e gelados - sua vida se ausentava e com um bufar de dragão, destruía-se pouco a pouco em meio a doces soluços naqueles paradeiros sem Deus e sem resolução.
Era levada ao sabor dos quatro ventos e má vida gozava.
Estava nem num nem noutro mundo, estava três passos atrás.
Não queria saber de nada com nada, nem sabia o que fazer dela mesma.
Queria era ficar afogada na farra toda a vida.
Percebia crescer dentro dela o coração asfixiado de pavor e sentia o sopro da morte.
Seu perverso e pobre estado de alma de cavalo impressionava e tinha muitas das coisas que se necessita para morrer.
Tudo espatifado.
Muitos se enredaram para sempre com a própria sina.

As delícias dos os quintos dos infernos e os cruzes do firmamento.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Srtª Josá

A Srtª Josá fez quarenta anos em fevereiro de novecentos e sessenta e quatro.
Isto não tinha importância nem uma.
Quando os completou nada mudou e seus olhos sombrios renunciaram a tudo.
Acordava, lavava-se - tragava um copo de água e uma xícara de café com frutas apodrecidas;
Arrumava a casa, fazia sua comida e principiava seu trabalho que só era sustado com o termo do dia ou a qualquer minuto, quando - então, chorava;
Unicamente ausentava-se para ir ao cinema e de preferência desacompanhada para não ter com quem discutir a fita.
A cada quinze dias, no final da semana - viajava para algum sítio;
Sua vida era um tédio.
Por certo a Srtª Josá sofria dos nervos.
Todos seus ascendentes eram acometidos por esta moléstia.
Era inevitável.
Descendia de linhagens desarranjadas e fracas.
E ali cresceu.
Era inteiramente descontente e irritável.
E já começava a concluir que a vida era mesmo assim:
Chata, medíocre e estúpida - infligidora de padecimentos e suplícios;
Vivia em uma casa escarlate exageradamente bela e suja num povoado qualquer da cidade.
Em outro momento... em lugar algum.
E imaginava que tudo podia ser diferente - pior, por exemplo;
Em outro instante desejava nada.
Pobre da Srtª Josá!
Havia desejado outra existência mais bacana.
Nada realizara, já não mais amava e ansiava por ir-se embora;
Acabava-se sua energia e sentia não poder a vida suportar por muito tempo.
Assim eram seus sentimentos: simples, como a mágoa;
Quem sabe um pouco mais de paciência?
Qual seria o remédio e com quem contar?
De qualquer forma sentia-se em condições melhores que em tempo anterior.
Era desnecessário desvanecer.
... Um amor compartilhado... uma vida ditosa...

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Srtª Agnes

Acolheu a morte por baixo de uma látea escuridão em 883.
Morreu de tristeza.
Nem a resplandecência de seus preitos mortuários fez com que sua partida não fosse olvidada.
Seu rosto estava invisível.
Totalmente.
Vestia um vestido de cem anos com forro de seda alaranjada e pompons que ia até os pés, e de fazenda veludosa debruada com pérolas pretas por dedos finos e mortos como os da Srtª Agnes.

A instrução era luxo e regalia em seu país.
A natureza, as nações e os seres humanos (habitualmente complicados) inquietos se irritavam...
Batalha geral e orações corânicas nas manhãs.
Nem um sítio da Terra parecia protegido.
O mundo inteiro era o reinado da violência, do medo e do pavor.
Onde se achavam as carabinas e as imergentes plataformas intercontinentais de mísseis?
Srtª Agnes não pertencia mais ao alvor da nívea América.

Botou seus ovos de andorinha e se encarapitou no telhado.
Srtª Agnes teve a maternidade ferida, teve um menino sem o pai.
Guardava finas mágoas.

Nada aconteceu tendo o dia como fundo.
Embaixo do céu mau – em uma festa dos cadáveres, Srtª Agnes conheceu um alemão - aplicado, capaz de empenho sem-fim, capaz de tudo –
de traços mais ou menos doces e muito simples e a desesperação tudo cobriu.
A obstinação e o descaminhar de Srtª Agnes eram óbvios.
Avariada e sem adagas, no meio das noites ameaçadoras - roubava cerejas.
Dependente do intrometimento divinal, aos prantos rezava.
Era fácil pressupor que estava tantã.
Havia nem uma rosa em sua vítrea voz.
Mostrava fadiga e depressão nervosa, e uma grande falta de benquerença.
Sofria uma alegria afetada ao lado da idiotia e do cretinismo.
Tinha no rosto um olhar de preocupação, nomeando o fim adjacente.
Em tempo nem um, os planos de uma defunta cheiram bem.
Ela estava muito morta.
Expirante, esborrachou-se.
Olhares opalinos pervagavam seu cogote e desenhavam-na como delicadamente desalumiada, uma à-toa.
Quando a noite vinha, a morte corria atrás dela.
Trazia a noite gelada consigo.
No esclarecer, toda coberta de moscas e o mal-estar.
¡Vida interceptada!

Subia um olor ruim do fundo dos tempos.

Tinha sempre necessidade das palavras confeitadas para iludir.
Era um jeito para o realismo cessar,
um meio que substituía a vida sem cintilação de Srtª Agnes – vivida na pasmaceira.

Não triscada, Srtª Agnes não mais suportava ser governada por larvas estrambelhadas, encardidas e risonhas.
Resolveu tranqüilizar-se para entender a situação de jeito claro.
Tomou uma pequena vasilha de café com água de flor de laranjeira e os traços se adoçaram.
O dia se fez, um forte vento assoprou e afastou o mau tempo e com o segundo sol –
a situação amainou.

Srtª Agnes falava num bom e elegante alemão a respeito da caverna da qual saiu.
Sabia das desgraças e dos riscos por que passara.

A bestice das interpelações causava desarranjo,
a ignorância de rudimentos contra-racismo embaraçava, a inexistência de civilidade -
de melindre e de suavidade no trato traziam desconcertos e as palavras deselegantes e o jeito irascível espantavam a todos.
Incessantes, eram importunadores – Srtª Agnes não entendia.

Volveu ao seu claustro em Munique.

A luz do céu, tapado de sorte – entrou.
Debaixo da clareação da lua dilatada, a brevidade rumo à vida -
a graça dos pretensiosos, anacarados risos felizes.
Transmigrava de um caminho entre as dormideiras para as roças de aveia.
Srtª Agnes rasteava aliado de grande influição e leal ao seu jeito.

A revolução e o combate foram imperiosos e tiveram sobretudo como fim o seu livramento.
Deu-se a possibilidade de ser.
De volta seu salvo-conduto, era dona do reino.
A fumaça de tabaco arábico não saía mais de sua boca.
Ao lado da fineza mortuária - câmbios reformatórios e o conseguimento.
Enchia os balaios de berinjelas e comia antes de a lua se levantar.
Seu corpo, Srtª Agnes queria leve.

Com os mesmos pensamentos, Srtª Agnes era outra.
De pacto e em antinomia com ela mesma.
Em seu desajeitamento, em seu comum resplendor e em um silêncio que ainda ouvia - esquadrinhava idéia nenhuma.
Mantinha as assombrações no claro e o prato cheio de doces de mel e desgraças.
Nada fazia, porém sempre ocupada.
Temia a luz e, muito pouco o inferno.

Dentro dela repousava a defunta que há muito tempo era.
E Srtª Agnes estava em si, quase inteira.

Banqueira egípcia em um território marselhês,
causou pasmo o fato de ter chegado até ali sem escafandro.
Certa de ser a mais experta, falsa – notável e perfumosa,
fundou um pequeno nosocômio.
Educada no Brasil, não criam que se atreveria e ganhasse.
Da janela de uma casa com iluminuras fosforescentes, Srtª Agnes olhava - ao pé,
com seus óculos crivados de rubis.

Céu e mar azuis, o sol caía a prumo.
Descabelada e desenfeitada,
Srtª Agnes simplesmente malversava seu tempo tratando de veleidades.

E no final, mas bem no final – um vago bem-estar.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Srtª Mariola

Armada de uma foice, uma múmia segou sua vida.
Deram-lhe um apoio débil, logo foi espezinhada.
Onde cresceu, as garantias eram bem fracas e sentada nos cantos escuros -
ela só vivia de ressentimentos.
Escreveu-se na Escola Fantástica na qual recebeu uma formação miserável, desenganou-se e teve mau sucesso.

A ocultas, em algum tempo passado – em pestilentos bairros de latas, endemoninhava-se.
A vida afirmava a amargura, passava como uma sombra nas luzes e pesava.
As danações não tardaram a vir e Srtª Mariola degradada junto a vampiros invisíveis de quinto gabarito, causava enojamento.
Começou a deperecer.
Intelecção frouxa, ela não achou coisa alguma benquerente nem deixava nada intato com sua podridão.
Não tinha nem o mais miserando apreço por si própria.
Quis o que lhe era lesivo e perdeu vantagem.
Srtª Mariola tinha pouca essência e um riso amarelado.
Enfim, havia possibilidade de morte.

A paixão a empuxou a causar mal.
Aluada e impertinente, arranhava a realidade.
Coisa alguma ficou junto ao real e com facilidade se rompeu.
Depois de diversas mobilizações inúteis, anímico desmoronamento e dias de penitência.
Era pessoa de vontade fraca demais para o mundo - era sem importância e não tinha fortaleza de ânimo, diziam-lhe.
E de verdade, de sacrificar tudo era capaz.
Escolheu transformar tudo em sordidez e se idiotizou.
Tornou-se mais grave e notável sua depressão.
Transtornava a sua vida e se tornava maior seu sofrimento.
A partir de então Srtª Mariola não mais achava paz em lugar algum.
Conheceu bem os mágicos sabores da destruição.
Pobre-diaba!
Teria sido melhor para ela que a atirassem ao mar.
Veio o mundo abaixo.

Num futuro irrealizável, em uma atmosfera bastante suave e sem ruído -
ela preferia o quietismo pessimista.
Achava-se em um lugar em que ela era possível e no qual podia acontecer e ser.
Ao espírito proporcionava um pouco de bem-estar.
Na inauguração do inverno, pra que a vida prospere e pra uma felicidade genuína - sai da sepultura!

Desimpedida, não precisou de pano de fundo para que não fosse visto seu negligente amor sem conseqüência.
Foi muito alegre o seu jantar de noivado.
Srtª Mariola deixou o pequeno barco correr,
estabeleceu uma rota e o tocou para frente.

Desembaraçada, com o coração pleno de paz podre –
apenas se aborrecia de morte e se entediava.
Ela não era coisa nem uma nem queria nem uma coisa.
Só a metade da terra.
Imortalmente contente e implacável, flanava em escondedouros.
Morava muito acima do mar e de todos os humanos,
onde liberdade de pensamento era imprescindível.
Srtª Mariola desdenhava todos e se enraivava.
Sua natureza esquiva não suportava a vida e tinha sentimentos sérios de desprezo,
e um rancor por boas e sérias habilidades inatas.
Vivia de corpo e alma contra um mundo de enredo falso e patético.
Não tinha certeza de a que lugar ir com sua forma usual de ser,
suas falhas e seus feitos nem tinha palavras que exprimissem seus incômodos e infortúnios.
Sabia das desgraças e dos riscos por que passara.
Seus sonhos vazavam.
Sua presença era mais ou menos saudável.
Tão estrambótica, tinha dois fracos.
Tratava de reservar sua irrealidade sugando a vida de quem lhe conferia atenção.

Ainda existia os sérios impulsos alheios à razão e uma tempestade em seu ar.
Tinham dias em que Srtª Mariola era tomada por um desgosto mais sombroso do que a mais maldita tristeza.
Mas ainda trazia consigo as bênçãos e os encantos finos e raros da vida.
Mentalidade limpa, melificou-se.

No fim da vida, sol fraco -
ancorou o barco e revelou sua desilusão por não ter ganhado o mundo.
Tudo foi sumido em uma grande indolência.
Ela teve agonienta morte causada por duas porções de fel incolor e estricnina.