Srtª Maria do Céu
“(...) A morte virá e a ela deverás te entregar, querendo ou não.
Aquele que organiza todos os dias como se fosse o último, não deseja – nem teme o amanhã.
Deve-se aprender a viver por toda a vida e durante toda a vida se deve aprender a morrer.
Faz a conta dos dias de tua vida, perceberás que poucos restaram para ti mesmo.
Nada está mais longe do homem ocupado do que viver.
Ninguém cuida de si mesmo.
Ninguém te devolverá aquele tempo, ninguém te fará voltar a ti próprio.
Quantas trevas uma grande felicidade causa às nossas mentes!
Todas as coisas que virão jazem na incerteza: vive daqui para diante.
Um homem ocupado não pode fazer nada bem (...)“
Lúcio Sêneca (4 a.C. – 65 d.C.)
A vida lhe foi dada com pouca generosidade e para que realizasse tarefas desimportantes.
Quando Maria do Céu nasceu com os olhos gateados - e irritada com o mundo, roncavam trovoadas e gatos.
Em pleno brilho da vida, abandonou-se à tristeza.
As coisas jamais correram bem e Maria do Céu descobria tão-só afligimento e tribulação.
Desesperava-se com o presente, lastimava o futuro e se queixava do passado.
E dominada por cólera e entregue a ódios, sentia o escoamento da vida.
Maria do Céu dedicou-se aos imprestáveis.
Nunca estava livre para nada, salvo para o vinho que subia à cabeça e para sentimentos desinteressados contrapostos à dor.
Tomava-se de vinho alcoólico para emortecer a dor existencial que em tanto abalava seus sonhos, e assim deixar a crise de nervos para outro momento.
Teve a morte adiante dos olhos.
A bem dizer, os anos corriam rápidos - mas seus dias não eram longos... eram só muito difíceis de suportar.
A felicidade que não lhe pertencia, incomodava.
Em seus olhos a luz da cobiça.
Ocupava-se invejando destinos.
Viu a sorte beijar as suas mãos... Rapidamente.
Mesmo muito sofrida ainda foi atrás de guarida onde pudesse ancorar e sentir acolhimento.
E foi puxada do inferno para a luz mais bela.
Maria do Céu evitava sair à noite.
Os vícios caminhavam sempre a sua volta e ela fugia por portas invisíveis.
Macia, a brisa solar a duras penas embalava a copagem das árvores.
A gataria e Maria do Céu passavam o dia todo à toa.
De dia esperava a noite, cansava-se fazendo coisa alguma.
Era fotografada pelo destino inteiramente assonorentada e esvaziada.
Ficava embriagada pela negligência e gastava seu tempo em nada.
Não dava avance a sua vida e sem nenhum objetivo, lançava-se a novos intentos com vontade inútil.
Tão pouco sabia dirigir seus atos.
Ela devia até ao açougueiro.
Diante da grande penúria e da vida miserável, nenhuma ação.
Maria do Céu não descobria nenhum trabalho que trouxesse ganho financial e pudesse realizar com alguma devotação.
Sua reserva de ouro e a prata esgotada, fez voto de pobreza.
Moviam-se os dias, a gatinha ensonada, se enrolava no sofá e Maria do Céu desbaratava-se em lavores literários e no indiferentismo.
Ela deslindava a liberdade da criação e a unicidade de pensamento, escrevendo acerca de seus despropósitos de maior importância.
Fazia-se acompanhar das letras na esperança de trazer para si algum ganhamento.
Fez seus estudos em Coimbra, onde foi reprovada por não apresentar a sua tese em tempo hábil.
Seus pensamentos excelsos, seus tesouros.
Embora experimentando um certo sossego – Maria do Céu seguia não achando tranqüilidade, tal como o fundo do mar que - depois da tormenta, contudo mantém-se desordenado.
Faziam-lhe medo as almas do purgatório que em contrição e perdidas borboleteavam pela terra.
Livrava-se de estranhos e de intrometimentos.
Ela morava em um porto e não tinha qualquer apego às conveniências.
Não estava nem aí.
E nem mais confidências havia.
No pátio, a gata gritava contra todos e tudo - e Maria do Céu em tom alegre, não íntimo – dava recomendações para qualquer um.
Apesar da pinta insolente e de não ter deferência por nenhum assunto alheio, ela olhava e emprestava atenção às palavras dos outros.
Falsa, mas doce.
Dizia-se acima de qualquer um, dona de si e do seu tempo – e nascida sobre outros céus.
Muito falaram mal por sua posição frente ao poder que o capital exercia sobre o homem.
Tinha inimigos exageradamente falsos, que constrangiam e a queriam como parte de seus cortejos – a fim de lhes prestar homenagem.
Sem dissimular, falava desimpedida.
Sua vida não se perdia pelos padecimentos sem necessidade, caía em erro por conversas esperdiçadas.
Bons ventos levaram seus amigos.
Eles desafastaram-se e se fecharam em copas, pegando para si suas horas.
Tomaram um avião e uma andorinha e seguiram para fazer o verão.
Nunca mais estiveram juntos.
As flores do vaso já desviviam – Maria do Céu cansada de sepultar herdeiros, deixou-se ficar em quieta contemplação do passado e entregou a alma ao Diabo.
Antes de ser mais infeliz, estuporou-se de hemorragia mental.
Em seu último dia passado, tinha elefantes em seu cortejo e um gato-pingado foi pago para seguir o enterro a pé, empunhando uma tocha e uma vela.
O cemitério beijava o mar e como presente de morte ganhou o absolvimento universal.
Um céu de rosas e uma luz negra iluminavam a cena.
Um espetáculo.
Não disse ao que veio e em vinte dias, sua lembrança já era perdida...
Apenas incomum mortal, um jeito de vida invulgar em um rearranjo sem fim.


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