quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Srtª Agnes

Acolheu a morte por baixo de uma látea escuridão em 883.
Morreu de tristeza.
Nem a resplandecência de seus preitos mortuários fez com que sua partida não fosse olvidada.
Seu rosto estava invisível.
Totalmente.
Vestia um vestido de cem anos com forro de seda alaranjada e pompons que ia até os pés, e de fazenda veludosa debruada com pérolas pretas por dedos finos e mortos como os da Srtª Agnes.

A instrução era luxo e regalia em seu país.
A natureza, as nações e os seres humanos (habitualmente complicados) inquietos se irritavam...
Batalha geral e orações corânicas nas manhãs.
Nem um sítio da Terra parecia protegido.
O mundo inteiro era o reinado da violência, do medo e do pavor.
Onde se achavam as carabinas e as imergentes plataformas intercontinentais de mísseis?
Srtª Agnes não pertencia mais ao alvor da nívea América.

Botou seus ovos de andorinha e se encarapitou no telhado.
Srtª Agnes teve a maternidade ferida, teve um menino sem o pai.
Guardava finas mágoas.

Nada aconteceu tendo o dia como fundo.
Embaixo do céu mau – em uma festa dos cadáveres, Srtª Agnes conheceu um alemão - aplicado, capaz de empenho sem-fim, capaz de tudo –
de traços mais ou menos doces e muito simples e a desesperação tudo cobriu.
A obstinação e o descaminhar de Srtª Agnes eram óbvios.
Avariada e sem adagas, no meio das noites ameaçadoras - roubava cerejas.
Dependente do intrometimento divinal, aos prantos rezava.
Era fácil pressupor que estava tantã.
Havia nem uma rosa em sua vítrea voz.
Mostrava fadiga e depressão nervosa, e uma grande falta de benquerença.
Sofria uma alegria afetada ao lado da idiotia e do cretinismo.
Tinha no rosto um olhar de preocupação, nomeando o fim adjacente.
Em tempo nem um, os planos de uma defunta cheiram bem.
Ela estava muito morta.
Expirante, esborrachou-se.
Olhares opalinos pervagavam seu cogote e desenhavam-na como delicadamente desalumiada, uma à-toa.
Quando a noite vinha, a morte corria atrás dela.
Trazia a noite gelada consigo.
No esclarecer, toda coberta de moscas e o mal-estar.
¡Vida interceptada!

Subia um olor ruim do fundo dos tempos.

Tinha sempre necessidade das palavras confeitadas para iludir.
Era um jeito para o realismo cessar,
um meio que substituía a vida sem cintilação de Srtª Agnes – vivida na pasmaceira.

Não triscada, Srtª Agnes não mais suportava ser governada por larvas estrambelhadas, encardidas e risonhas.
Resolveu tranqüilizar-se para entender a situação de jeito claro.
Tomou uma pequena vasilha de café com água de flor de laranjeira e os traços se adoçaram.
O dia se fez, um forte vento assoprou e afastou o mau tempo e com o segundo sol –
a situação amainou.

Srtª Agnes falava num bom e elegante alemão a respeito da caverna da qual saiu.
Sabia das desgraças e dos riscos por que passara.

A bestice das interpelações causava desarranjo,
a ignorância de rudimentos contra-racismo embaraçava, a inexistência de civilidade -
de melindre e de suavidade no trato traziam desconcertos e as palavras deselegantes e o jeito irascível espantavam a todos.
Incessantes, eram importunadores – Srtª Agnes não entendia.

Volveu ao seu claustro em Munique.

A luz do céu, tapado de sorte – entrou.
Debaixo da clareação da lua dilatada, a brevidade rumo à vida -
a graça dos pretensiosos, anacarados risos felizes.
Transmigrava de um caminho entre as dormideiras para as roças de aveia.
Srtª Agnes rasteava aliado de grande influição e leal ao seu jeito.

A revolução e o combate foram imperiosos e tiveram sobretudo como fim o seu livramento.
Deu-se a possibilidade de ser.
De volta seu salvo-conduto, era dona do reino.
A fumaça de tabaco arábico não saía mais de sua boca.
Ao lado da fineza mortuária - câmbios reformatórios e o conseguimento.
Enchia os balaios de berinjelas e comia antes de a lua se levantar.
Seu corpo, Srtª Agnes queria leve.

Com os mesmos pensamentos, Srtª Agnes era outra.
De pacto e em antinomia com ela mesma.
Em seu desajeitamento, em seu comum resplendor e em um silêncio que ainda ouvia - esquadrinhava idéia nenhuma.
Mantinha as assombrações no claro e o prato cheio de doces de mel e desgraças.
Nada fazia, porém sempre ocupada.
Temia a luz e, muito pouco o inferno.

Dentro dela repousava a defunta que há muito tempo era.
E Srtª Agnes estava em si, quase inteira.

Banqueira egípcia em um território marselhês,
causou pasmo o fato de ter chegado até ali sem escafandro.
Certa de ser a mais experta, falsa – notável e perfumosa,
fundou um pequeno nosocômio.
Educada no Brasil, não criam que se atreveria e ganhasse.
Da janela de uma casa com iluminuras fosforescentes, Srtª Agnes olhava - ao pé,
com seus óculos crivados de rubis.

Céu e mar azuis, o sol caía a prumo.
Descabelada e desenfeitada,
Srtª Agnes simplesmente malversava seu tempo tratando de veleidades.

E no final, mas bem no final – um vago bem-estar.

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