sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Srtª Maria do Céu


Rainha Victoria 1887

“(...) A morte virá e a ela deverás te entregar, querendo ou não.
 Aquele que organiza todos os dias como se fosse o último, não deseja – nem teme o amanhã.
Deve-se aprender a viver por toda a vida e durante toda a vida se deve aprender a morrer.
Faz a conta dos dias de tua vida, perceberás que poucos restaram para ti mesmo.
Nada está mais longe do homem ocupado do que viver.
Ninguém cuida de si mesmo.
Ninguém te devolverá aquele tempo, ninguém te fará voltar a ti próprio.
Quantas trevas uma grande felicidade causa às nossas mentes!
Todas as coisas que virão jazem na incerteza: vive daqui para diante.
Um homem ocupado não pode fazer nada bem (...)“
Lúcio Sêneca (4 a.C. – 65 d.C.)

A vida lhe foi dada com pouca generosidade e para que realizasse tarefas desimportantes.
Quando Maria do Céu nasceu com os olhos gateados - e irritada com o mundo, roncavam trovoadas e gatos.

Em pleno brilho da vida, abandonou-se à tristeza.
As coisas jamais correram bem e Maria do Céu descobria tão-só afligimento e tribulação.
Desesperava-se com o presente, lastimava o futuro e se queixava do passado.
E dominada por cólera e entregue a ódios, sentia o escoamento da vida.

Maria do Céu dedicou-se aos imprestáveis.
Nunca estava livre para nada, salvo para o vinho que subia à cabeça e para sentimentos desinteressados contrapostos à dor.
Tomava-se de vinho alcoólico para emortecer a dor existencial que em tanto abalava seus sonhos, e assim deixar a crise de nervos para outro momento.
Teve a morte adiante dos olhos.
A bem dizer, os anos corriam rápidos - mas seus dias não eram longos... eram só muito difíceis de suportar.

A felicidade que não lhe pertencia, incomodava.
Em seus olhos a luz da cobiça.
Ocupava-se invejando destinos.

Viu a sorte beijar as suas mãos... Rapidamente.

Mesmo muito sofrida ainda foi atrás de guarida onde pudesse ancorar e sentir acolhimento.
E foi puxada do inferno para a luz mais bela.
Maria do Céu evitava sair à noite.
Os vícios caminhavam sempre a sua volta e ela fugia por portas invisíveis.

Macia, a brisa solar a duras penas embalava a copagem das árvores.
A gataria e Maria do Céu passavam o dia todo à toa.
De dia esperava a noite, cansava-se fazendo coisa alguma.
Era fotografada pelo destino inteiramente assonorentada e esvaziada.
Ficava embriagada pela negligência e gastava seu tempo em nada.
Não dava avance a sua vida e sem nenhum objetivo, lançava-se a novos intentos com vontade inútil.
Tão pouco sabia dirigir seus atos.

Ela devia até ao açougueiro.
Diante da grande penúria e da vida miserável, nenhuma ação.
Maria do Céu não descobria nenhum trabalho que trouxesse ganho financial e pudesse realizar com alguma devotação.
Sua reserva de ouro e a prata esgotada, fez voto de pobreza.

Moviam-se os dias, a gatinha ensonada, se enrolava no sofá e Maria do Céu desbaratava-se em lavores literários e no indiferentismo.
Ela deslindava a liberdade da criação e a unicidade de pensamento, escrevendo acerca de seus despropósitos de maior importância.
Fazia-se acompanhar das letras na esperança de trazer para si algum ganhamento.
Fez seus estudos em Coimbra, onde foi reprovada por não apresentar a sua tese em tempo hábil.
Seus pensamentos excelsos, seus tesouros.

Embora experimentando um certo sossego – Maria do Céu seguia não achando tranqüilidade, tal como o fundo do mar que - depois da tormenta, contudo mantém-se desordenado.
Faziam-lhe medo as almas do purgatório que em contrição e perdidas borboleteavam pela terra.
Livrava-se de estranhos e de intrometimentos.
Ela morava em um porto e não tinha qualquer apego às conveniências.
Não estava nem aí.
E nem mais confidências havia.

No pátio, a gata gritava contra todos e tudo - e Maria do Céu em tom alegre, não íntimo – dava recomendações para qualquer um.
Apesar da pinta insolente e de não ter deferência por nenhum assunto alheio, ela olhava e emprestava atenção às palavras dos outros.
Falsa, mas doce.
Dizia-se acima de qualquer um, dona de si e do seu tempo – e nascida sobre outros céus.
Muito falaram mal por sua posição frente ao poder que o capital exercia sobre o homem.
Tinha inimigos exageradamente falsos, que constrangiam e a queriam como parte de seus cortejos – a fim de lhes prestar homenagem.
Sem dissimular, falava desimpedida.
Sua vida não se perdia pelos padecimentos sem necessidade, caía em erro por conversas esperdiçadas.

Bons ventos levaram seus amigos.
Eles desafastaram-se e se fecharam em copas, pegando para si suas horas.
Tomaram um avião e uma andorinha e seguiram para fazer o verão.
Nunca mais estiveram juntos.

As flores do vaso já desviviam – Maria do Céu cansada de sepultar herdeiros, deixou-se ficar em quieta contemplação do passado e entregou a alma ao Diabo.
Antes de ser mais infeliz, estuporou-se de hemorragia mental.
Em seu último dia passado, tinha elefantes em seu cortejo e um gato-pingado foi pago para seguir o enterro a pé, empunhando uma tocha e uma vela.
O cemitério beijava o mar e como presente de morte ganhou o absolvimento universal.
Um céu de rosas e uma luz negra iluminavam a cena.
Um espetáculo.
Não disse ao que veio e em vinte dias, sua lembrança já era perdida...

Apenas incomum mortal, um jeito de vida invulgar em um rearranjo sem fim.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Srtª Ânjela

A mofina antecâmara estava em meia-luz e da janela se via a catacumba festiva na qual Srtª Ânjela se conservava.

A sentinela abaixada, guardava-se à margem.
Durante anos sumiu num enredo de incertezas.
Em seus andamentos na noite, era vista atrás dos féretros sem cruzes e - malvista em companhias de perdição e vendas de bêbedos quaisquer.
Não tinha alcoômetro que avaliasse o teor do rum de cana doce, com gosto de madeira - que bebia gole a gole com canudinho de papel.
Nas noites de domingo, quando emendava com o desjejum da segunda - trucidava-se.
Os contrabandistas vendendo elixir de cianureto de ouro, em estojos – para a realidade virar engraçada e simples;
e a Srtª Ânjela vendendo a alma mesmo.
Nos bairros altos, por leviandade e por pecado ordinário – surripiando residências.
O pouco de dignidade que lhe sobrou para viver, ficou sem também.
Sua história não tinha graça.
Sua vida esteve sempre revolta por um emaranhado de urupucas.

Amanhecida, avinhada e carunchenta – desmoronava no saimento do Café Santíssimo Virgem que nem uma entidade de outra vida (numa indiscrição de mármore).
Dava para ouvir os aplausos dos mortos.
Cruzes!

Bogotana pura, falava seu pensamento na cara - não disfarçava defronte de nenhuma pessoa nem em influência alguma (também não falava muito a ninguém).
Sempre se afigurou insultuosa.
Supunha que devia a essência de seu feitio de pensar e de ser às bordadeiras e às ilusões imortais.
Tinha renome pela sua desmedida sinceridade.

Modificava consoante seus estados de graça.
Não existia a mínima probabilidade de ser verdadeira.
Nem sequer se congraçava com a vida.

Nos primeiros brilhos daquele junho anterior, acendeu fogueiras no quintal dos fundos -
rogando a Santo Antônio de Pádua que os caminhos abrissem (nem que fossem a cotovelada).
Pensou três vezes: ainda que sem posses visíveis, e ganhando aproximadamente nada - alterou seu fado (resolvendo mudar de vida).
Fez a tempo de plantar.
Em conversações em grupo, no qual cada um depunha suas ausências - suas dádivas (suas graciosidades e suas lindezas) que se baralhavam com as precisões, os espíritos - os humores e os milagres de todos, que iam embebendo gota a gota a sua adoentada mente.
Demandou de algumas semanas para costumar a original e singular marcha.
Ela jamais tinha estado num lugar tão pacato.
Graças ao torvelinho de contentamento que traziam com eles, pela graça de seus formosos caprichos e por ação dessas boas forças - Srtª Ânjela restabeleceu-se de seus achaques.

A desgraça já era passada e apenas estava revocando o evento, e assim lidava com tempos bons e maus.
A vida real terminou dando o que por direito lhe pertencia.
As lembranças eram acidentais e breves, e os rastros desvanecidos.
Com grande alegria, com sorte – com um mundo interno insociável e com uma boa folha corrida de vida tombou do firmamento.
Estava bem e com a sagacidade intata para fazer suas diligências particulares.
Noticiaram-lhe que tinha passagem branca, tudo pronto para descolar.
Essa era sua vida.
Envolvida num trapo de linho negro - na missa de domingo ou no concílio de sexta, esposaria-se de um senhorito com vestes primorosas (com um chapéu-de-sol e com o olho de um verde temerário) entrincheirado em seus gostos, seus preconceitos e suas crendices.
A única paixão dele sabida era a cinematografia.

Os meios não faltaram, uma vez que constantemente foram faltosos.
Srtª Ânjela nasceu sem nenhum talento ingênito, na colorida doçaria da distinta vovó que a começar do amanhecer vivia de vender bolos e refrescos - e que pastoreou a sua puerícia.
No retiro de uma casa, um reino de mulher.
Dependente total da felicidade que nunca teve, em sofrimento – insegura e sem fé de morte natural morreu e foi para o inferno.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Srtª Gong

Que bom ficar assim, horas inteiras, fumando... e olhando as lentas espirais...’ -Mário Quintana-
De uma hora para a outra.
A desgraçada apagou a luz de todo...
A nem uma hora, um sono puro e quieto.
Aquela mesma alminha pertinaz, mesma menina miserável de sempre - sofria.

Não mais sabia de coisa alguma, nem o que procurava.
... nunca soube.
O que tanto buscava não existia.
Que importa!

Bendita no Inferno.
Febricitante, em condenadas vendas (que tanto mal continham) por horas inteiras.
Cada vez mais gravemente débil, era o próprio mal.

A marca de uns sopapos.
Biff! Pow! Sock!
A marca da truculência.
Última vez que lhe mataram.

Absoluto arrependimento infindo.
Oh! as marcas da bebida...
Tsk! tss-tss!

A casa tombou!
Como a vida era difícil.
E que fez?
A deixou no meio.

Lacerada, achou bom ir para um lugar qualquer.
Encheu-se daquela conversação e foi em boa hora... para nem uma parte.
Era a hora decisiva.
Foi tratar da vida.
Pôs tudo em esquecimento.
Ahh! Uf!

De quando em quando, alguns cuidados inúteis -
uma chuva de ouro e uma sombração na vidraça.

O relógio deu meio-dia.
Tick-tock!
Srta. Gong encontrava-se sem forças para declarar o que fez e o que pensava;
Enquanto lhe davam as extrema-unções a fim de perdoados serem seus pecados mortais,
temporais e mesmo veniais – distraída... pensava noutra coisa!
Pensava que tudo se resolveria dentro em pouco tempo.
Não conseguia pensar em mais nada;
Pensou durante uns minutos e divinamente se finou, de pavor.
Ah!
Foi-se aos oitenta anos de idade.
No portão de cemitério, as ratazanas imundas e o corvejamento dos corvos.

Bordados à linha de prata: um pára-sol, um sapato velho e uma fronha.
Um armazém de livros, um balaio - um bule, uma aboboreira -
uma cadeira de balanço e uma Chapelaria.
Seus únicos bens.

Era de mundo nem um, claramente...
Srta. Gong jamais reapareceu.