domingo, 4 de maio de 2008

Srtª Marlom

Foto: Ale Morales
‘Baudelaire dizia que se devia incluir, na Declaração dos Direitos do Homem,
o direito de ir embora e o direito de se contradizer'.
'Historicismo, sociologia, psicanálise? Todos (discursos) emburguesados.'
'Mas eu sou muito fiel às minhas obsessões’! Depois retificou:
‘Digamos que minhas obsessões me são extremamente fiéis’.
Roland Barthes

Seguiu-se uma infância serena e os bosques da Tristeza foram guardados nela.

Srta. Marlom passou sua vida em constantes crises de tristura.
encontrava-se na amarescente gaiola do amor.
tudo Começou com uma indignação, que logo se transformou em irritação e explodiu em ofensas – num crescendo que durou meses.
Srta. Marlom Falava de sua maneira de mal-estar na vida, perpetuamente suspensa entre a fatal e negra solidão e o nojo.
Seu estado espiritual e seu desamparo irremissível a tolhiam de viver em unidade.
Seu capital de saber, dilapidado - Passou vários períodos esquadrinhando os conflitos de sua própria alma.

Logo atrás do revés: os encontros e os livros novos.
Portava flores e insuspeitas cargas invisíveis.
Sem delongas, Srta. Marlom luziluziu como os luze-luzes.
Sempre à borda do aborrecimento e suficientemente irônica para descentrar e sorrir.
Havia passado uma temporada na China, achou sem graça.
Viajou muitas vezes, mas variou pouco o percurso.

As perdições trouxeram-lhe conseqüências ótimas.
Carregava uma certa loucura que era uma forma de lutar.
Com pacatos conhecimentos de Psicologia Anormal, desaferrolhou um recinto escuro nos subterrâneos de um local úmido e criou um infantário.
Presenteava às crianças blocozinhos de açúcar fino revolvido com outras substâncias.
Suas especialidades transformadas em espécies quaisquer.
Era bem desajuizada, infelicíssima e muito sombria, papel inconfortável - mas para ela atrativo, como todo papel.
O trabalho árduo do pensamento e certos espetáculos inocentes e menores da vida quotidiana, atraíam a sua atenção.
Srta. Marlom era, além disso - vista como uma ocupada de coisa alguma.

Diletante, deu seguimento ao que escrevia por total prazer pessoal.
Impura, sua linguagem servia como sua única arma.
A pavonada dos que defendem certezas, que sempre enunciam o poder que oprime –
a Molestava.
Muitas vezes dava aos seus trechos autonarrativos uma cortina ligeira de farsa.
Srta. Marlom não tinha importância por beleza, tinha por alguma riqueza especial.
Tomava o infinito cuidado de não impor seu próprio discurso subjetivo como fala da verdade.

Abalançava a vida em fastientas manobras mágicas.
Seu colar adiamantado, empenhorou.

Podia jurar que os fatos perdoariam seus atos...
Em meio aos ataques aéreos que se repetiam sem intermitência, Teve pensamentos autocidas;
junto o desejo de abrandá-los.
Srta. Marlom quiS ser compreendida e se feriu gravemente.
Sua vida dentre parênteses e um amor Irrevogável, suprimido.
O desalento deste dia, quando experimentou um sofrimento insuportável - ficou marcado em sua alma e como ela mesma, tudo estava abandonado ao próprio destino. Felizmente!

Fim.

Evane Picoli
29-abr-008

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